Conto: Uma garota (quase) como outra qualquer

Vampiro
Projetado pelo Freepik

 

Ela dançava ao ritmo dos hits daquele verão. Estava em um país diferente, com seus amigos recém adquiridos em um chalé que só funcionava naquela estação do ano.

A decoração era rústica dando a entender que a temática do lugar tinha algo a ver com as praias do Havaí. Mesmo estando em meio a montanhas. O lugar era todo feito para que os frequentadores se transportassem dali para lugares que consideravam mais alegres e cheios de vida, já que na maior parte do ano aquele país era frio e levemente inóspito. Querendo ou não todos temos algum desejo de estar em outro lugar. E ela estava.

Ela dançava tentando se deixar levar pela experiência de conhecer algo novo no país onde habitaria por um tempo. Quem a olhava de longe dançando com o grupo de amigos, poderia pensar que estava completamente à vontade naquela atmosfera. Mas de perto, se parasse para conversar com ela, talvez percebesse que era algo meramente superficial e exterior.

Enquanto seu corpo se movia com o fluxo daquele ritmo alegre, a mente dela fervilhava de preocupações. Queria ser aceita. Fazer parte daquilo, ser tratada como igual. Mas ela não era igual. era completamente diferente. Claro que cada um tem suas particularidades, mas ela não era uma jovem de 25 anos como qualquer outra. Ela se preocupava demais e aproveitava de menos.

Gostaria de ser uma dessas meninas espontâneas e alegres, que tem a sensualidade fácil à flor da pele. Gostaria de ter o riso fácil e ser articulada de maneira espontânea sem medo de falar besteira. Mas ela era dessas meninas tímidas e inseguras que morreria se fizesse papel de boba. Ela simplesmente não consegue aproveitar os momentos com a inocência de uma criança livre pois tem constantemente medo de ser julgada.

Exteriormente aparentava ser livre, mas era prisioneira de si mesma. O forte bullying sofrido na infância a fez mais forte sem sombra de dúvidas, mas ao mesmo tempo a fez mais frágil. Sua autoestima era fragilizada e para ela era um exercício diário esse fortalecimento. Estava tentava exorcizar a tensão com a dança. Sua timidez era um entrave sim, mas havia algo mais.

Ela observava ao redor enquanto dançava. Seus amigos riam e bebiam. Talvez a única pessoa que não estivesse ligando para a bebida era ela. Foi aí que ela percebeu um cara observando-a. Era alto, esguio, cabelos muito negros e penetrantes olhos verdes. De pele muito alva, estranhamente usava um casaco moletom escuro. Estava calor, por que diabos ele estaria usando aquilo.

Como temia ele se aproximou lentamente. Ela deixou que o fizesse. Como resistir à alguém tão bonito? Era tudo o que uma garota sonhava. Então por que sua tensão apenas aumentava?
Olhando discretamente em volta enquanto o misterioso homem se aproximava ela pôde ver que estavam todos como hipnotizados pela música e pelo ambiente. Era como se estivessem todos em transe. Menos ela, o homem misterioso que se aproximava, a barista e o DJ. Todos os seus instintos a deixaram mais alerta do que antes. Com uma olhadela rápida viu que o barista prestava atenção no movimento do homem. Olhavam para ela. As feições deles já não eram as mesmas tinham algo de animalesco e sedento.

O misterioso homem agora estava há milímetros dela, se insinuando. Dançando da maneira mais sensual que podia, procurando tentar não deixar transparecer seus medos, ela dançava agora com o corpo grudado ao daquele homem. Qualquer mulher teria dificuldade em resistir à beleza e ao charme daquele cara misterioso. Usava um perfume inebriante, com um quê de mortal.

Ele agora respirava pesadamente em seu pescoço enquanto dançavam. As mãos dela percorriam o corpo dele e ela podia sentir os seus músculos por baixo daquele moletom escuro. Mesmo com toda aquela música alta ela pode ouvir um leve rosnado e o bafo quente dele em seu pescoço. Era o momento de pensar e agir rápido. Era agora ou nunca.

Com a mão esquerda acariciava o peito musculoso dele procurando ser o mais sensual possível e demonstrando que estava na dele. Pela fenda de seu vestido, com a mão direita alcançou o objeto que salvaria sua vida naquela noite, e com sorte, a vida de seus amigos que de nada desconfiavam. Foi tudo muito rápido. O vampiro estava prestes a se alimentar dela quando ela o surpreendeu enfiando-lhe a estaca que carregava sempre consigo no coração do monstro. Ele sibilou de dor e caiu no chão exibindo seus olhos agora vermelhos e suas presas afiadas. ela o olhou com desprezo e pisou na estaca, enterrando-a mais fundo no peito do vampiro que no mesmo instante se desfez em uma gosma nojenta.

Claro que o perigo não tinha acabado, pois as coisas pra ela nunca eram simples ou fáceis. Ainda tinha a barista muito puta da vida querendo arrancar o coração dela e o DJ que sabe Deus lá que maldades tinha planejado para aquela noite. O baristas quebrou uma garrafa de vodka na beirada do balcão e avançou ameaçador na direção dela. Ele tinha os olhos vermelhos de ódio e dentes bem afiados. Será que ela tinha acabado de matar o namorado dela?

Quando a vampira enfurecida pulou na direção dela, ela se abaixou rapidamente, pegou a estaca em meio aquela gosma que foi o vampiro bonitão que acabara de matar, e sem muito tempo para sentir nojo se concentrou na luta que viria a seguir. Agora era ela contra dois vampiros furiosos. Não havia tempo para sentir absolutamente nada. Apenas tempo para fazer aquelo para o qual fora treinada a vida toda e salvar a todos ali, não apenas seus amigos. A música continuava tocando alta, e agora as luzes piscavam forte. O DJ não deu ponto sem nó. Tudo para confundir o máximo possível a caça-vampiros.

Primeiro ela precisaria dar cabo da vampira maluca com a garrava de vodka que estava prestes a atacar novamente. Uma estava de frente pra outra em postura de ataque. A vampira sibilou de ódio e atacou novamente, correndo em direção da caça-vampiros, agitou a garrafa quebrada na direção dela, numa tentativa de cortar sua garganta para poder beber direta,ente da ferida aberta. A caça-vampiros conseguiu desviar a tempo e com um giro agarrou a vampira enlouquecida de raiva por trás, segurando o braço e o pescoço da vampira tentando desarmá-la. A vampira deu uma cabeçada na caçadora fazendo-a cambalear para trás e esbarrar em uma das pessoas que ainda dançava em transe completamente alheia ao que tava acontecendo. Umas pessoas, inclusive, dançavam sobre os restos mortais do primeiro vampiro sem nem se darem conta do quão nojento estava o chão.

A vampira já avançava novamente e a caçadora se preparava pro próximo round, quando foi agarrada por trás pelo DJ psicopata. A vampira louca riu de satisfação como se já tivesse ganho a batalha e encostou uma ponta da garrafa quebrada no pescoço dela.

“Agora você me paga pelo que fez ao Kevin” – disse ameaçadoramente a vampira sedenta – “E quando acabar com você, vou esquartejar cada um dos seus amiguinhos aqui.”

“Kevin? Mas que porcaria de nome babaca pra um vampiro é esse? Não me diga que seu nome é Winnie?” – debochou a caça-vampiros, deixando a adversária mais puta da vida.

O DJ apertou mais os braços dela, e a vampira rosnou com ódio. Antes que a vampira cravasse de vez aquela ponta da garrafa quebrada no pescoço dela que já estava com um corte superficial, a caça-vampiros deu um belo chute entre as pernas da vampira que só ficou ainda mais puta, mas se afastou o suficiente pra que a caçadora conseguisse se desvencilhar do DJ- vampiro com uma rasteira e avançar em direção da vampira-louca. Deu-lhe um chute alto dessa vez no meio da cara, deixando-lhe cambaleante, para segundos depois cravar-lhe a estaca no peito de maneira certeira.

“Ok, menos um” – pensou já se preparando para atacar o DJ. A estaca ainda estava no peito da vampira doida agonizante e ela precisava ganhar tempo. “Por que diabos eu trouxe só uma estaca?” – pensou correndo para o bar. O DJ-Vampiro rosnava pra ela, e corria em sua direção. Talvez a melhor coisa mesmo fosse atraí-lo para longe das demais pessoas. No bar, decidiu usar a mesma tática da vampira-barista-louca e se armou de uma outra garrafa quebrada. “Clichê, mas se funcionar, beleza” – ela pensou vendo o vampiro se aproximar mais puto ainda. Só que ele era mais forte e mais inteligente que a Winnie do Kevin e desta vez a agarrou e enfiou a cara dela no balcão, subjugando-a. Sentiu o cheio do sangue que escorria da ferida do pescoço dela e arreganhou os dentes. Tá, ele não era tão mais inteligente assim. Visto que confiou demais em sua própria força e esqueceu que ela poderia usar as pernas para atingi-lo. Com sua perna direita, deu-lhe um coice entre as pernas, o que o enfureceu ainda mais. Mas a movimentação foi o suficiente para libertar uma de suas mãos e alcançar uma faca que estava largada ali no balcão e ela só pôde vê-la graças ao vampiro que enfiou sua cara ali com truculência.

O vampiro poderia estar puto da vida, mas ela também estava.Quando o vampiro recobrou o equilíbrio, ela cravou a faca na mão direita dele, prendendo-a ao balcão. Se desvencilhando dele, ela pulou o balcão correndo em direção aos restos nojentos da vampira e pegando sua estaca de estimação que estava naquele estado de imundice. Foi apenas o tempo de se levantar e ver o vampiro com ódio nos olhos e a mão rasgada e pingando sangue pronto pro ataque. Ela pegou impulso correndo na direção dele e ele na direção dela. Não podia hesitar. Quando estavam prestes a colidir, ela se abaixou, dando-lhe uma rasteira final e cravando a estaca no peito do vampiro caído à sua frente.

“Você é um péssimo DJ.” – disse cuspindo na cara dele e vendo seu corpo liquefazer. Pegou sua estaca de volta, fez cara de nojo olhando para ela em suas mãos. E se virou pra olhar as demais pessoas que continuavam dançando. “Puta merda, meu vestido!” – ela pensou ao olhar o estado de seu vestido de alcinha que antes era branco com florezinhas estampadas e agora estava todo sujo de sangue e nojeiras de vampiros.

Olhou pro público daquela danceteria temática e suspirou com desanimo pensando no que ia fazer com aquele povo todo que logo ia acordar do transe. E como diabos ia se explicar para os seus novos amigos? Por que cacetes voadores ela tinha que querer tanto ser aceita? “Sabia que deveria ter ficado em casa vendo Netflix. Saco.”