Pessimismo constante – a síndrome da Pollyanna reversa

Reclamações, brigas, discussões infrutíferas, mais brigas, opiniões divergentes que viram discussões contraproducentes, mais críticas, polêmica, discursos de ódio. Pessimismo. Esse é o resumo da internet pra mim. O que, na verdade, reflete a sociedade. Para todos os lugares que olho, com todas as pessoas que converso, há sempre algum tipo de lamentação. Parece que estamos viciados no pessimismo.

pessimismo

Pollyanna quem?

Já ouviu falar da Pollyanna? Não, não estou falando daquela sua amiga gente boa que tem esse nome. Calma que eu já contextualizo pra você. Pollyanna é a protagonista de dois livros clássicos de Eleanor H. PorterPollyanna (1913) e Pollyanna Moça (1915). A doce menininha órfã passa por um monte de tragédias e dificuldades desde muito cedo. Ainda assim, ela não se torna uma criança triste ou amarga. Pelo contrário. Ela nos ensina a jogar o jogo do contente, jogo que aprendeu com seu falecido pai.

Existia uma certa tradição passada de mãe para filha a respeito do livro Pollyanna. No meu caso, minha mãe me apresentou Pollyanna Moça, na minha adolescência. E esse livro me marcou para sempre. Foi aí que comecei a jogar o jogo do contente, mesmo que de vez em quando eu esqueça da brincadeira. Acho que essa tradição foi se perdendo, mas se um dia eu tiver uma filha, vou apresentar esse livro pra ela.

O jogo do contente consiste em simplesmente tentar achar o lado bom de todas as coisas. Todas as situações tem lados bons e ruins. Mesmo quando tudo parece péssimo, ainda assim há algo de bom. Se nos esforçarmos o suficiente, conseguimos encontrar o que há de bom em tudo na vida. E assim, Pollyanna nos ensina a viver de maneira mais leve.

Um trecho do livro Pollyanna Moça, onde uma conhecida da menina explica a origem do jogo:

Della explicou que a menina sofrera um acidente, fora atropelada. Passou
meses no hospital tentando recuperar-se. Tinha dores fortes no quadril e não conseguia
andar. Apesar disso, nunca reclamava na hora dos tratamentos, por mais
doloridos que fossem.
— Estranho para uma menina da sua idade. Ainda assim não entendo onde
está querendo chegar, minha irmã — disse Ruth.
— Pollyanna me contou que era órfã de mãe. Foi criada pelo pai, um pastor
pobre de uma cidadezinha do interior, com a ajuda das senhoras da paróquia. O
pai, já falecido, ensinou-a o “jogo do contente”.
— “Jogo do contente”?
— No Natal, ela esperava os presentes que eram doados à igreja. Certa vez,
ela pediu uma boneca mas ganhou um par de muletas. Criança que era, Pollyanna
começou a chorar. Então o pai lhe disse que ela deveria ficar contente por não
precisar usar muletas. A partir desse dia, ela passou a encontrar motivos para alegrar-se
nas situações difíceis da vida. Quando mais complicado fosse encontrar
felicidade, mais interessante ficava o jogo.

 O que isso tem a ver com pessimismo?

Tem a ver que parece que estamos viciados em jogar o jogo do descontente. Estamos numa fase em que tudo, por melhor que seja, as pessoas conseguem extrair o pior o tempo inteiro. Somos um bando de Pollyannas reversas. Apontando defeito em tudo que se vê pela frente. Em todas as coisas. Um comportamento super tóxico. Chega a ser irritante. Algo como “Comi um cookie delicioso, mas…”; “Hoje meu dia foi muito produtivo, mas…”; “Fulano é ótimo, mas…” Sempre tem um “mas”. Parece ser mais forte que nós. Como se tudo fosse uma bosta no mundo. Eu sei, eu sei, os tempos estão difíceis. Mas deixa eu contar um segredo que acho que já falei aqui: não é o que nos acontece, mas a maneira como encaramos.

Problema todo mundo tem. Defeito todo mundo tem. Tudo tem um lado negativo. Mas porque cacetes voadores temos que reclamar de cada coisinha do nosso dia a dia? Pra quê esse pessimismo todo? Tá faltando gratidão.

Isso mesmo, gratidão. Você tem um lar, não tem? E não me venha completando com “é, mas tá com vazamento na cozinha” ou com “ah, mas o aluguel tá caro”. Você tem um lar. Há quem tem que dormir na chuva, há quem perdeu tudo em desabamentos e enchentes.

Você tem o que comer, não tem? Você tem um emprego? Legal, muita gente não tem. Então seu chefe pode ser mala, mas você paga suas contas, não paga? Tem internet. Tem WhatsApp. Se não tivesse não poderia ler esse texto ou mandar memes pro grupo da família. É ou não é? Então, gratidão anda em falta.

Será que você consegue simplesmente apreciar uma coisa sem pôr defeito? Será que você consegue ao menos parar de jogar o jogo do descontente?

Eu tenho uma proposta

Na verdade duas propostas. Uma é: leia, se possível, Pollyanna e/ ou Pollyanna Moça. É uma leitura deliciosa, que deveria ser obrigatória a todas as gerações. A segunda é: vamos experimentar jogar o jogo do contente? É o exato oposto do jogo do descontente.

Eu começo: Estou com cólica, mas olha que sorte a minha! Ela chegou somente depois que eu fiz todas as minhas atividades físicas do dia e agora posso trabalhar tranquila, colocando uma bolsinha de água quente, tomando um remedinho, e quem sabe até uma bebida quentinha (já que o outono chegou) que ela logo para de me incomodar.

É só um exemplo bobo, mas acho que deu pra perceber como se joga né? Experimenta jogar esse jogo por uma semana, e te garanto que seu astral vai mudar. Chega de pessimismo! Até suas conversas se tornarão mais agradáveis a partir do momento em que você começar a enxergar o mundo com outros olhos. Mas claro, tudo isso sem alienação.

Falando em astral mudar, já te contei que pensamentos positivos atraem coisas positivas?

Obviamente nada cairá do céu por força do puro pensamento positivo. O grande lance é viver de maneira mais leve, menos tóxica, trabalhando pelo que se deseja. Viver no pessimismo só dificulta a própria força de vontade de se conseguir algo. O negativismo atrapalha, puxa pra trás, porque é uma forma de autossabotagem. Viver se lamentando e reclamando faz com que tudo ao nosso redor pareça um enorme estorvo. Qualquer obstáculo fica mais difícil. Tudo fica mais sombrio, até os dias mais lindos de primavera.
Pensamento positivo faz bem, e, se bem direcionado, nos impulsiona em direção da realização dos nossos sonhos e desejos, nos proporcionando dias mais leves e até mais felizes. Porque não é o destino final que importa, mas o caminho que percorremos (e como percorremos esse caminho).

Fica aí a dica da semana.

Me contem nos comentários se já leram esses livros, se já ouviram falar e como está sendo jogar o jogo do contente.

Beijos grande e até a próxima!

 

Desventuras em Série

Desventuras em Série deixa meu coração sangrando toda vez. E ainda assim, logo que saiu a segunda temporada na Netflix, eu maratonei vivendo com intensidade todas aquelas emoções.

Desventuras em Série

É engraçado como Lemony Snicket (Patrick Warburton) tem toda razão em dizer o tempo todo que não é uma história bonita, que não melhora, e como deveríamos ir assistir outra coisa. E mesmo assim, mesmo ele nos avisando to tempo todo com aquela cara meio canastrona dele, não acreditamos e continuamos assistindo, torcendo pelos órfãos Baudelaire, tragédia após tragédia após tragédia. Eu particularmente adoro a maneira como Lemony narra a história. Ele entra nos cenários, ele interage com o público quebrando a quarta parede, ele explica coisas do passado. Ele agrega, ele nos guia, afinal ele sabe melhor do que nós o que está acontecendo já que fez parte de muitos dos acontecimentos.

Desventuras em Série

Conde Olaf é odioso. Um verdadeiro gênio do mal, e parece estar ainda mais assustador na segunda temporada. Mas ainda assim é impossível odiar Neil Patrick Harris que simplesmente está incrível no papel.

A fotografia é linda de se ver. Tudo tem uma pegada meio sombria, decadente e vintage. Tudo tem um ar tragicômico, e talvez por isso mesmo, nos dê esperança de que qualquer coisa de feliz aconteça a Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e Sunny (Presley Smith) Baudelaire. Talvez, nos mantenhamos esperançosos quando uma alegria aqui e outra ali surge, como a amizade com os trigêmeos Quagmire.

Irmãos Baudelaire e os trigêmeos Quagmire.

O primeiro ano da série trata dos livros Desventuras em Série 1,2,3 e 4 (Mau Começo, A Sala dos Répteis, O Lago das Sanguessugas e Serraria Baixo-Astral). A segunda temporada vai do livro 5 ao 9 (Inferno no Colégio Interno, O Elevador Ersatz, A Cidade Sinistra dos Corvos, O Hospital Hostil e O Espetáculo Carnívoro).

Isso significa que, seguindo essa linha, teremos apenas mais uma temporada que deve abordar os livros Desventuras em Série 10, 11, 12 e 13 (O Escorregador de Gelo, A Gruta Gorgônea, O Penúltimo Perigo e O Fim). O que é ótimo, pois ao mesmo tempo que eu quero saber o que acontece depois, estou farta de sofrer por esses garotos. Não parece não, mas é dureza viu? Dá vontade de entrar na tela, puxar os órfãos pra fora e criar eles na segurança do meu lar. Não apenas a bebê Sunny que é a coisa mais fofinha e adorável que eu já vi na vida.

Irmãos Baudelaire. A neném Sunny é fofa demais!

Ah se eu apenas tivesse ouvido o conselho de Lemony… agora não estaria de coração partido. A série é maravilhosa, mas não vou negar, mexe com a gente.

Se quiserem embarcar nesse carrossel de emoções eu sugiro que vão preparados para assistir Desventuras em Série. E sim, por favor assistam, mas não esqueçam que aquilo que Snicket avisa o tempo todo deve ser levado em consideração.

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Corte de Espinhos e Rosas, de Sarah J. Maas

Oi! Fazia tempo que eu não falava de livros, né? Da última vez que fiz uma resenha aqui, eu estava desesperara para ler a continuação de Trono de Vidro. Pois é, ainda não tive acesso a Trono de Vidro 6, mas comecei a ler a série de livros Corte de Espinhos e Rosas, de Sarah J. Maas.

Isso porque eu simplesmente me apaixonei pelo universo de trono de vidro e decidi me consolar com algo que se aproximasse àquela estória. Eu não podia estar mais errada. A série de livros Corte de Espinhos e Rosas é bem diferente da história de Aelin Galanthynius. E eu vou explicar porque. ( Na verdade já terminei de ler o primeiro tem um tempão. O caso é que emendei no segundo e depois no terceiro, mas hoje vou falar apenas do primeiro livro da série, ok?)

Corte de Espinhos e Rosas, Sarah J. Maas - versão ebook kindle

Aqui conhecemos Feyre Archeron. Uma jovem muito pobre que precisa caçar para que sua família não morra de fome. Seu pai um dia foi um rico comerciante, mas perdeu tudo e teve a perna quebrada por seus credores por não pagar suas dívidas. Feyre é a irmã mais nova de Nestha e Elain, e, apesar de amar profundamente as irmãs não se entende muito bem com elas. Nestha é extremamente arrogante, e Elain é um doce, mas vive em um mundo de sonhos. Feyre é a mais fria das irmãs, marcada pelo sofrimento.

Sobra para Feyre garantir a sobrevivência da família e é em uma de suas caçadas, quase morta de fome, castigada pelo rigoroso inverno, que ela mata um lobo grande demais para ser um lobo qualquer. Sem saber, ela mata um ser feérico, povo este muito temido pelos humanos comuns. É esse ato que muda completamente seu destino.

Uma vida por outra vida. Essa é a lei dos feéricos. Assim sendo, dias depois um feérico assustador bate à porta de Feyre e exige que ela a acompanhe. Sem alternativa, ela é levada pelo feérico para o outro lado da temida muralha mágica que separa o mundo dos frágeis humanos do mundo dos poderosos feéricos.

A narrativa de Corte de Espinhos e Rosas é rica em detalhes, nos fazendo imaginar um verdadeiro mundo cheio de magia, com seres belíssimos e também com seres assustadores. (A descrição de várias coisas nas cortes feéricas me lembrou muito da terra dos Blood Elfs de WoW, sem contar a presença de nagas).

A história se desenrola de maneira fluídica ao mesmo tempo que prende nossa atenção com acontecimentos surpreendentes. Diferente de Trono de Vidro, Corte de Espinhos e Rosas é narrado sempre em primeira pessoa a partir do ponto de vista de Feyre, o que nos permite ter uma imersão total na personagem. E, como não poderia deixar de ser, a protagonista criada por Maas está longe de ser perfeita.

O livro nos leva a crer que há um final feliz. E de certa forma há. Mas não sem nos deixar curiosos para saber o que virá a seguir, nos próximos volumes. Foi por isso que comprei rapidamente o segundo volume.

Feyre pelas mãos da artista Charlie Bowater. A própria Sarah J. Mass já postou essa imagem em seu perfil do instagram e usou uma outra arte da moça para ilustrar uma das capas.
Atenção!!  Alguns spoilers a partir daqui!

Decidi fazer uma análise mais profunda da obra, mas para isso vou precisar falar de várias coisas que acontecem ao longo da história. São spoilers descarados mesmo, mas a intensão é mostrar alguns pontos interessantes sobre os quais vale a pena refletir. Se você já leu o livro, te convido a vir comigo. Caso não tenha lido ainda, volta nesse post depois para trocarmos uma ideia. 😉

A Fera e a Síndrome de Estocolmo

As sinopses todas comparam Corte de Espinhos e Rosas (carinhosamente chamado pelos fãs de ACOTAR – abreviação do inglês A Court of Thorns and Roses ) com o clássico da Disney Bela e a Fera. Sim, a obra tem vários pontos parecidos e com certeza serviu de inspiração como a própria autora afirma.

Capturada por um ser bestial, Feyre obviamente pensa o pior. Que seria uma prisioneira, que aconteceriam coisas horríveis com ela, etc. Com o tempo a besta se mostra cordial, um verdadeiro príncipe metamorfo, que se transforma em um supostamente belo feérico. Digo supostamente porque sua corte foi amaldiçoada e são obrigados a usar uma máscara que cobre a testa, os olhos e o nariz. Fora isso, Feyre consegue ver que são belos como deuses.

Conversa vai, conversa vem, Feyre que antes era faminta, pobre e amedrontada, é coberta de mordomias e atenções. Acreditando que aquela vida era tudo o que sempre queria, acaba se apaixonando por Tamlin, seu raptor. E, tal como no clássico da Disney, Feyre seria a chave para a quebra da maldição. Muito parecido com Bela e a Fera, não é mesmo?

Vi muitas pessoas chamando Tamlin de embuste e não entendi porque. ACOTAR pinta ele como um príncipe. Fica difícil odiá-lo. Mas lendo o segundo e o terceiro livro eu entendi melhor. Mas isso é assunto para outra hora.

A verdadeira ameaça está Sob a Montanha

Na comparação com estórias já contadas eu ouso ir um pouco mais longe. Observando vários aspectos dos acontecimentos que se desenrolaram depois que Feyre foi levada para a Corte Primaveril, é possível traçar um paralelo com o mito de Eros e Psiquê quando Feyre vai até a corte de Amarantha, Sob a Montanha salvar seu amor Tamlin.

No mito de Psiquê, a jovem mortal, depois de olhar o rosto do seu amado sem sua permissão – incitada por suas invejosas irmãs – descobre que ele é ninguém menos que o lindo deus Eros, filho de Afrodite, a deusa do amor. Ferido, Eros é levado por sua mãe que o esconde de Psiquê. Arrependida, a jovem mortal oferece seus serviços a Afrodite, que a obriga a cumprir umas tarefas quase impossíveis a fim de se provar merecedora do amor de Eros.

O mesmo é exigido de Feyre. Quando a jovem mortal vai até a corte da cruel Amarantha, ela é aprisionada e obrigada a fazer um acordo para libertar Tamlin. Ela teria que passar por algumas provas antes de reavê-lo. Salvo algumas modificações aqui e ali, é como no mito supracitado. No fim das contas, Psiquê vence as provas e é tornada imortal, reunindo-se com Eros. Mais ou menos o mesmo que acontece com Feyre. Com a diferença que Amarantha tem requintes de crueldade ao determinar as provas e Feyre não sai nada ilesa.

Recomendo a leitura de Corte de Espinhos e Rosas?

Não me leve a mal. Eu amo o Mito de Eros e Psiquê. E adorei tanto Corte de Espinhos e Rosas que imediatamente comprei a continuação pelo kindle. Mas o que eu posso dizer é: fica mil vezes melhor depois. A trama vai ficando cada vez mais rica (assim como em Trono de Vidro) e Feyre vai se desenvolvendo. A sequencia se mostra mais voltada para um público adulto também.

Eu recomendo ler sim Corte de Espinhos e Rosas, com a promessa de que os livros seguintes são ainda mais empolgantes e cheios, recheados, de plot twists.

Corte de Espinhos e Rosas é da Editora Galera Record, com tradução de Mariana Kohnert.